curitiba, madrugada, 02h37

O horário mais sombrio da noite (ou do dia) é o mais sedutor. Contraditoriamente — como quase tudo na minha vida, aliás.

Sou uma pessoa repleta de erros, tanto, que chego a desconfiar que nunca cometi algum acerto.

A coisa toda já começou meio torta: nasci de uma cesariana, numa manhã de sexta-feira. À força ou, como diria minha mãe: “eu não nasci, fui extraído”. Creio que justamente, por isso, eu me extraviei e não dou muito valor a esta coisa abstrata que se chama existência.

Continuo vivendo, mais por comodismo e preguiça do que por real interesse, embora, deva reconhecer que a curiosidade sobre no que isso vai dar, me faça latir perplexo, como o cachorro de Heráclito.

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“A persistência da memória” 1931, Salvador Dalí. Museu de arte moderna de Nova Iorque.

Apesar disso tudo, falta-me o tempo necessário para observar de maneira adequada o tédio que me conduz nessa navegação imprecisa, que, no fim das contas, eu não sei até que ponto é necessária.

Já procurei me engajar, sartrianamente, enxarquei meu dasein com o vinho barato da filosofia. A literatura me fez flertar com a arte, porém, a panaceia dos lugares comuns me deixa desgostoso.

Me tornei, como os suicidas covardes que vivem por falta de explicação, e por não se matarem não terão a sublimidade dos poemas de Bandeira, um reles pagador de boletos. E minha vida, meu prazer, minhas justificativas passaram a gravitar ao redor disso. E é só.

Claro que eu gostaria de demonstrar ao mundo minha singularidade, queria que os outros me vissem com meus olhos ou como leem os versos de Álvaro de Campos, ou com aquele espanto nos olhos da guria no primeiro ano do curso de letras que descobriu a existência de Machado de Assis.

Só que não é nada disso, a minha história não será uma cativante história, e não restará legado de minhas aventuras e desventuras. Não serei sequer um herói picaresco (sem bildungsroman pra você, meu velho).

Com sorte, serei um sexagenário, e tal qual o guia de Narayan, direi gracejos e pérolas de sabedoria cliché, nos pontos de ônibus.

Segue o baile.