nec plus ultra

O conhecimento de números e suas operações básicas pode deixar uma pessoa muito deprimida, por exemplo: o sujeito trabalha dez horas por dia, fica mais umas três indo e voltando do trabalho (sem contar a espera dos ônibus), dorme em média seis horas, gasta uma hora e meia em refeições e mais meia hora em atividades de higiene. O que sobra? Umas quatro horas pra fazer o que quiser — pode ver dois filmes, ler algumas páginas de um livro, fumar uns quarenta cigarros ou tentar passar a fase difícil de um jogo de vídeo game. Só que, dificilmente, depois de um dia de rotina, alguém terá disposição para se dedicar a alguma coisa produtiva e que realmente faça sentido.

684px-hugo_van_der_goes_-_the_fall_of_man_and_the_lamentation_-_google_art_project

“A queda do homem e a lamentação” 1479, Hugo van der Goes. Museu Histórico de Viena.

Uma das grandes desgraças do pecado original, foi quando Jeová disse pra Adão, naquele tom de poeta parnasiano: “Ganharás teu pão com o suor do teu rosto”. Aí a coisa desandou. Embora, a outra opção, a ignorância e boa vida no paraíso, não parecesse lá muito boa. Morder a maçã do conhecimento (como não disse, mas sugeriu o Derrida), foi ao mesmo tempo o remédio e o veneno. Aqui entra a grande insídia da serpente: fazer o pobre ser humano acreditar que ele ganhava alguma coisa com isso.

O fato de o homem ter se transformado num pagador de boletos foi a real queda do firmamento. Pois, a grande enganação é acreditar que o trabalho leva alguém a algum lugar. A alienação a qual somos condicionados — o mito besta da felicidade, pode ser resumida naquela imagem do burro que persegue a cenoura. Nós caminhamos em busca de uma satisfação inalcançável e, no final das contas, movemos outra coisa que não a nós mesmos, portanto, estamos sempre no mesmo lugar.

O curioso é que a panaceia da prosperidade — talvez a maior das ficções, apregoa aos quatro ventos a cultura do trabalho como crescimento pessoal, quando, no fundo, é mera alienação e desumanização.

Desconfio que, nem se nos tornássemos o “além homem”, poderíamos voltar aos trilhos de nosso destino, porém, Nietzsche foi certeiro ao dizer: “Os ignorantes são os únicos aptos a sobreviver”. E segue o baile.