ἄνθρωπον λόγον εχων

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Henry Valentine Miller (1891 — 1980)

Henry Miller diz, lá no meio de seu calhamaço literário, que ninguém tem nada pra dizer, literariamente falando, antes dos quarenta anos, a razão: ainda não há vivência suficiente.

Contudo, essa máxima precisa ser entendida, necessariamente, sob a perspectiva do tempo qualitativo e não quantitativo — ou Rimbaud (de quem Miller gostava de falar) não poderia fazer sentido.

A ficção faz parte da natureza humana (o velho Aristóteles foi certeiro ao dizer: aνθρωπον λόγον εχων — conceitozinho que suscita uma boa dose de dor de cabeça, não só na tradução como na interpretação), todo mundo gosta de uma história, a fofoca, aliás, é um exemplo disso (Schadenfreude, como diriam os doutos deutsches).

São dois os pontos cruciais a se considerar, o primeiro é que viver nos torna pessoas interessantes — desconfio que isso é o que Miller quer dizer, daí a necessidade da experiência, o outro ponto é que a intensidade da vida não está diretamente ligada ao tempo vivido, Rimbaud, por exemplo — e mais um punhado de gente que você leitor (raro e singular leitor) deve estar matutando aí, se encaixa no perfil.

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Jean-Nicolas Rimbaud (1854 — 1891)

Não é nenhuma novidade falar sobre a condensação do tempo em nossa época, atingimos senão a onisciência, ao menos o limiar da ubiquidade (as multiabas), a quantidade de informação a que temos acesso nos torna “eruditos” (no sentido mais rasteiro do termo: “não-rudes”), porém, não nos torna sábios, e muito menos interessantes. Informação é uma coisa bem diferente de formação (pensemos cá na — sempre eles — diferença entre Kultur e Bildung).

Por conta disso, é que boa parte das histórias contadas, por boa parte de quem se considera escritor ou artista, não passa de um mero punhado de desinteressantes lugares comuns, ainda mais quando se trata de novos autores e autores novos — nesse aspecto a tecnologia e a facilidade de publicação são uma maldição.

O que me leva a constatar que ainda não aprendemos a usar o nosso tempo apropriadamente, possivelmente, pela incapacidade de julgar e escolher o que é realmente relevante, em suma: vivemos muito mal porque não vivenciamos a vida, apenas passamos por ela, numa sucessão sem concatenação.

Perceber o tempo é tédio — o bom tédio proustiano, mas hoje em dia, ficar entediado é raro. Sempre é preciso estar fazendo alguma coisa, e sempre estão surgindo novas coisas pra fazer, que no fundo acabam sendo as mesmas coisas com novas embalagens.

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Pietro Manzoni, “Merda de Artista”, 1961.

Esse impulso de se fazer algo talvez seja o grande responsável pela quantidade de lixo cultural a que estamos submetidos, não tem nada a ver com motivação, mas sim com hábito. Como somos estimulados a consumir, somos também estimulados a produzir, e aí é que reside um grande problema, assim como não temos lá muito senso crítico em nossas escolhas de consumo, por falta de um lastro consistente, também não o temos na hora de criar alguma coisa.

Juntando tudo isso, me lembro de uma outra máxima, essa de Leminski: “O melhor amigo de um escritor é a lata de lixo”.

Viver e aprender e não aprender e viver é a sacada.

Mas, é claro, você pode justificar a bobajada que escreve se refugiando num nicho específico e ser um “autor sensível”, escrevendo para “leitores sensíveis” — o tal “leitor ideal”, nas palavras de Umberto Eco; mas, daí, você estará fazendo outra coisa e não literatura.

E segue o baile.