memento mori

Totentanz_Lübeck_5

The Lübeck Danse Macabre (detail, photographic reproduction, original destroyed)

Memento mori I

Ute Ida Unweise, ou simplesmente Dona Ida, era uma senhorinha que se dizia deutsch (mas, segundo pudemos apurar, possuía uma árvore genealógica que a classificava de SRD), nada simpática, que morava num big apartamento no Bigorrilho, atualmente Champagnat.

O apartamento, fruto de um longo e arrastado consórcio imobiliário, que levou boa parte da vida e da saúde dela e do marido para ser pago (ela, do lar; ele, aposentado agora, de algum setor de algum instituto estadual), era seu orgulho e, construído num tempo em que o Bigorrilho ainda era Bigorrilho e ainda era mato, com o tempo se valorizou e lentamente chegou à crista da onda com a alcunha de Champagnat.

Dona Ida, se quisermos adotar uma terminologia mais chã, ou o jargão do vulgo, era aquilo que se costuma definir como “soberba”, enfim: ela tinha “o rei na barriga”. Dona Ida tinha três grandes paixões: brigar com a diarista, levar seu poodle para cagar na praça perto do Museu do Olho e viajar para o Canadá para visitar o filho – que dava um murro desgraçado por lá, mas, de qualquer maneira morava no exterior, e convenhamos que uma coisa é comer o pão que o diabo amassa por aqui e outra completamente diferente, o pão que ele amassa por lá.

Dona Ida acabara de chegar de viagem, aliás, e trouxera do Canadá malas entulhadas de moletons de segunda mão, mas que dados os cuidados do povo canadense com suas roupas, estavam praticamente novinhos em folha. Aproveitando a influência do ex-chefe do marido com uma vereadora local, dona Ida conseguiu uma barraquinha na Feirinha do Largo Coronel Enéas e, enquanto tricotava o eterno cachecol para o marido – coxa branca retinto, o colocava para vender os moletons. Os ganhos até que eram razoáveis e, no fim do dia, após levar o poodle, eterno companheiro, para sua cagadinha vip, dona Ida chegava em casa e se dava ao luxo de uma taça de prosecco e um punhado de acepipes, enquanto ouvia, com entusiasmo, seu álbum predileto do André Rieu.

E assim ela seguia a sua vida, até o dia (era um domingo) em que três toques seguidos, longos e fortes na campainha, mudaram tudo para sempre. Ao atender a porta, pronta para soltar um impropério, ela se deparou com a estranha figura de manto negro e foice. Era chegada a hora. Dona Ida imaginara que seus últimos momentos seriam numa cama com dossel, cercada pelos entes queridos, mas que nada, foi ali, em pé, com a taça de prosecco ainda pela metade, que ela sentiu o toque gélido e, como a morte tende a usar o que está à mão para os seus fins, morreu engasgada com um pistache.

Memento mori II

Sorveu um longo gole de café de sua caneca customizada e sentou-se confortavelmente, na cadeira sob medida; à sua frente a tela do computador de última geração, às suas costas, a moldura da estante de livros.

Tudo estava pronto: Johan Unschreiben iria escrever sua obra prima. Deu uma olhada no busto de Goethe, para se inspirar e… o telefone tocou: “Heilige Scheiße!”.

Caminhou até o aparelho e o puxou da tomada – já havia desligado o celular.

Sentou-se, novamente, e pensou numa epígrafe, uma obra prima precisava de uma epígrafe: “Durchauss studi…”, e a campainha tocou.

Indômito, Herr Unschreiben pisou duro até a porta e espiou pelo olho mágico: era Frau Unweise, a vizinha do andar de cima, o que diabos ela poderia querer? Observou-a tocar e tocar, e se afastou da porta, ouviu ainda uma batida, mas ignorou solenemente.

De volta ao seu refúgio, procurou a inspiração quase perdida nos olhos de Goethe: “…iert, mit heißem Bemühn…”, e, subitamente, sua cadeia de pensamentos foi interrompida pelo toque do interfone. Herr Unschreiben fechou a porta do escritório com um pontapé e respirou fundo, bem fundo, inspirando a inspiração, gozando ao máximo a plenitude da solidão do momento criativo de sua obra prima.

Porém, ele não estava só: atrás dele, austera com seu manto e foice e seu toque gélido, estava a morte, pronta para usar o que estava à mão. Herr Franz Unschreiben se imortalizou naquele momento, não pela boca de grandes pensadores, mas pela de Frau Unweise, que se encarregou de contar a história de como tentara em vão salvar “o véio alemão”, alertando-o sobre o cheiro de gás.

(Publicado originalmente no Facebook, em 09 e 20 de janeiro de 2018)