penny dreadful

sally-mayfield

Ed Fox

penny dreadful volume um

ela gostava de tudo o que não acho graça: bergman, nancy, tapioca, música contemporânea, hugo mae, hambúrguer de soja e suco de caju.

apesar de tudo isso, eu era sumariamente manipulado pela tintura de suas unhas: pretas como as de um cadáver, pelo cheiro de chloé e pela maneira descabida com que ela articulava suas palavras em seus raciocínios abstrusos.

naquele tempo eu bebia demais e estava profundamente influenciado pelo horácio quiroga. então, creio que era meio óbvio que a existência era pequena demais para nós dois, doutor.

penny dreadful volume dois

dentre todas as inúmeras habilidades que ela tinha, uma em especial me pasmava: ela dechavava, enrolava, pilava, passava a goma e acendia, tudo com uma única mão; depois assoprava a fumaça de lado e sempre cruzava as pernas como um tipo de mise-en-scène, pra consumar o ato.

então – era batata! – citava a simone de beauvoir, assim, meio blasé, mas dizia: “a simone isso, a simone aquilo…”, como se fossem íntimas (parecia a bárbara heliodora falando do shakespeare).

e o sartre? bem, ela o considerava um bundão de dentes podres por causa do cigarro, coisa, que segundo ela, também aconteceria comigo, eu já era um bundão, só me faltavam os dentes podres pra ser um dileto discípulo do mestre.

francamente, não sei se era um elogio. como então suportar esses caminhos da liberdade, na idade da razão, chega a me dar náusea, doutor.

penny dreadful volume três

as coisas pioraram, quando ela passou a usar óculos, todos os seus juízos eram apodídicos, os meus, que não tenho os sisos, eram cortados como manteiga.

eu sentia uma tensão no ar se adensando até a positividade.

no dia em que ela fez a primeira citação do heidegger em alemão, confesso que tremi na base:

“Das Seiende, dessen Analyse zur Aufgabe steht, sind wir je selbst”.

daí senti que não havia saída, ela se tornara um fenômeno, doutor.

penny dreadful volume quatro

ela era uma pessoa forte – aquilo que o cliché de autoajuda chama “leoa”, “guerreira”, ou coisas que o valha.

esteve na merda muitas vezes, mas, sempre dava um jeito. como era boa de língua(s), descolava umas aulas particulares e vivia disso, comumente algum empresário grisalho e com pouco tempo para as formalidades do aprendizado a contratava; por conta disso, sempre tinha chocolate em casa e alguns vinhos – intocados (ela bebia mesmo “sangue de boi” – ter uma adega era como aqueles livros de estante de advogados: pra ver e não consumir, enfim, o estatus da coisa é que era importante, segundo ela).

de todo o tempo em que estivemos juntos, só a vi desmontar uma única vez, estávamos bebendo no escuro, iluminados apenas pela luzinha vermelha do aparelho de som, quando no rádio começou a tocar “coração alado”, foi como no livro do stevenson, ela começou a cantar junto, sua voz embargou e seu rosto se transformou num amálgama de lágrimas e ranho.

nunca descobri a razão, doutor, mas confesso que fiquei também tocado.

(Publicado originalmente no Facebook em 13, 26, 28/12/17 e 03/01/18)