Trakl Trakl bum!

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Georg Trakl (1887 – 1914)

No rol das grandes figuras atormentandas, Trakl encabeça a lista, tanto pela vida, terrível, quanto pela obra: marcadamente vivificante de seus dramas. Medalhão do Expressionismo alemão, admirado por filósofos do naipe de Wittgenstein e Heidegger, ele nadou nas águas pofundas de Baudelaire e Rimbaud e, ouso dizer, as mesmas de Isidore Ducasse. Além desses parentescos poéticos ilustres, caberia aproveitar o fogo dessa brasa para o mais lúgubre dos poetas cá da terra: Augusto dos Anjos e pelo viés de seu simbolismo pensar a poesia de Trakl.

Creio que não se trata apenas de parentescos temáticos, mas de uma comum percepção de mundo, ainda que o niilismo budista de Trakl não seja explícito, há que se reconhecer que ambos falam a mesma língua e andam por caminhos muito próximos, o flerte fatal com a loucura e a morte, um jeito de ver a vida pelos olhos escatológicos de seu fundamento originário, considerando a degradação como a única certeza, a capacidade de enxergar a humanidade na sua plenitude, um lugar em que as mesmas flores à amada são as flores de um túmulo.

Aqui talvez resida um problema, tanto Trakl quanto Augusto dos Anjos são mestres num tipo de lirismo ao avesso, poetas do pensamento, mas do pensamento compreendido naquela acepção do Idealismo alemão, no qual sentir é principalmente pensar, só que um pensar imediato e não contaminado pela razão, daí sua suposta dificuldade de compreensão (muito além das corriqueiras preocupações vocabulares), uma poesia que mostra que a verdade da arte está em outro lugar, bem além da adequatio.

Trakl e Augusto dos Anjos são mais do que reveladores de um mundo representativo – a poesia deles não tem aquele caráter de imitatio (na pior acepção escolástica do termo), mas criadores que realizam a vida, ou nas palavras de Hegel, sua poesia “expande-se no campo do representar interior, do intuir e do sentir para um mundo objetivo que não perde inteiramente a determinidade da escultura e da pintura e é capaz de desdobrar mais completamente do que qualquer outra arte a totalidade de um acontecimento, de uma sequência de uma ulternância de movimentos de ânimo, de paixões, de representações e o decurso fechado de uma ação”.

Os Corvos

Sobre um negro canto precipitam
Ao meio dia os corvos duros gritos.
Suas sombras ciscam junto à corça
E às vezes vê-se que roncam.

Oh como eles estorvam a calmaria
Castanha do campo ali sozinhos,
Tal qual uma esposa desabrida,
E às vezes se fazem ouvidos.

Ao redor uma carcaça, algures farejam,
E súbito ao norte alçam seu voo
E desvanecendo como num cortejo
Tremem o ar com uma luxúria cálida.

 

Die Raben

Über den schwarzen Winkel hasten
Am Mittag die Raben mit hartem Schrei.
Ihr Schatten streift an der Hirschkuh vorbei
Und manchmal sieht man sie mürrisch rasten.

O wie sie die braune Stille stören,
In der ein Acker sich verzückt,
Wie ein Weib, das schwere Ahnung berückt,
Und manchmal kann man sie keifen hören.

Um ein Aas, das sie irgendwo wittern
Und plötzlich richten nach Nord sie den Flug
Und schwinden wie ein Leichenzung
In Lüften, die von Wollust zittern.

Romance noturno

Sozinho sob o véu de estrelas
Vaga calmo pela meia noite,
O gajo pelo sonho inquietante,
Desperto cinza a lua espelha.

A doida chora desgrenhada
Na janela as grades apertando.
No lago adiante o amante encanta
A amante após doce caminhada.

O assassino ri um vinho pálido,
Estremece os doentes a morte crua.
A freira ora ferida e nua
Perante o Salvador crucificado.

A mãe entoa a melodia.
Quieta a criança a noite assunta
Com olhos repletos de astúcia.
No puteiro o riso inebria.

À solitária a vela descendente
na mão morta branca rabiscante
Um sussuro no muro delirante.
O dormente soa outrora e sempre.

Romanze zur Nacht

Einsamer unterm Sternenzelt
Geht durch die stille Mitternacht.
Der Knab aus Träumen wirr erwacht,
Sein Antlitz grau im Mond verfällt.

Die Närrin weint mit offnem Harr
Am Fenster, das vergittert starrt.
Im Teich vorbei auf sußer Fahrt
Ziehn Liebende sehr wunderbar.

Der Mörder lächelt bleich im Wein,
Die Kranken Todesgrausen packt.
Die Nonne betet wund und nackt
Vor des Heilands Kreuzespein.

Die Mutter leis’im Schlafe singt.
Sehr friedlich schaut zur Nach das Kind
Mit Augen, die ganz wahrhaft sind.
Im Hurenhaus Gelächter klingt.

Beim Talglichit drunt’ im Kellerloch
Der Tote malt mit weißer Hand
Ein grinsend Schwigen an die Wand.
Der Schläfer flüster immer noch.

Melancolia da tarde

– O bosque moribundo cisma –
E sombras o acossam qual cercas.
A presa abandona sua toca,
Enquanto um riacho ali bosqueja

E fetos e pedras velhas segue
E brilha prateado na floresta.
Se ouve a lamúria na garganta
Quiçá ali estrelas também brilhem.

A campina erma luze a esmo,
Vilas, urzes e pantanais,
E finge algo em castiçais.
Rasteja sobre a rua um frio.

No céu em movimento um risco
Em revoada aves sacanas
Migram até terras estranhas.
Ao sobe e desce dos caniços.

Melancholie des Abends

– Der Wald, der sich verstorben breitet –
Und Schhatten sind um ihn, wie Hecken.
Das Wil kommt zitternd aus Verstecken,
Indes ein Bach ganz leise gleitet

Und Farnen folgt und alten Steinen
Und silbern gläntz aus Laubgewinden.
Man hört ihn bald in schwarzen Schlünden –
Vielleicht, daβ auch schon Sterne scheinen.

Der dunkle Plan scheint ohne Maβen,
Verstreute Dörfer, Sumpf undd Weiher,
Und etwas täuscht dir vor ein Feuer.
Ein kalter Glanz huscht Straβen.

Am Himmel ahnet man Bewegung,
Ein Heer von wilden Vögel wanern
Nach jenen Ländern, schönen, andern.
Es steigt und sinkt des Rohres Regung.

A noite tempestuosa

Oh o anoitecer rubicundo!
Luzem e vibram à janela aberta
Confusas cepas em azul difuso,
Dentro o espectro se acoberta.

Baila o pó no esgoto fétido.
Barulhento o vento vibra o vidro.
Um coice de cavalos enraivecidos
Nuvens cruas os raios fustigam.

Ruidoso rompe o espelho de água,
Gaivotas grasnam nos caixilhos.
O ginete de fogo salta a tumba
E deflagra chamas nos pinhos.

Pacientes guincham no hospital.
A plumagem da noite tange o azul.
Luzidia de repente põe a nu
A chuva nos telhados de zinco.

Der Gewitterabend

O die roten Abendstunden!
Flimmernd schwankt am offenen Fenster
Weinlaub wirr ins Blau gewunden,
Drinnen nisten Angstgespenster.

Staub tanzt im Gestank der Gossen.
Klirrend stößt der Wind in Scheiben.
Einen Zug von wilden Rossen
Blitze grelle Wolken treiben,

Laut zerspringt der Weiherspiegel.
Möwen schrein am Fensterrahmen.
Feuerreiter sprengt vom Hügel
Und zerschellt im Tann zu Flammen.

Kranke kreischen im Spitale.
Bläulich schwirrt der Nacht Gefieder.
Glitzernd braust mit einem Male
Regen auf die Dächer nieder.

(TRAKL, Georg. Das dichterische Werk. Deutscher Tascehnbuch Verlag. München, 1972.)

Publicado originalmente em Jornal Relevo