Antero de Quental: a poesia como realização do pensamento

 

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Bailarico – Museu do Chiado – MNAC (Leonel Marques Pereira –1828- 1892)

 

À guisa de introdução

Antero de Quental, figura de proa do movimento realista português que ficou reconhecido como a Geração 70 – Realismo de classe que ao morder os calcanhares da alta burguesia visava não a uma evolução coletiva da sociedade portuguesa, mas parecia mais preocupada na manutenção de seus próprios valores e na inclusão de Portugal em uma Europa tipicamente burguesa, mas não na real integração, basta perceber que mesmo em Eça, realista por excelência, a voz não é dada ao “povo” e mesmo os conflitos se estabelecem dentro da própria classe, nunca a transcendendo, oposto de um neorrealismo de um Torga de Vindima ou de um Saramago de Levantado do chão –, e cuja personalidade oscilante e de certa maneira tão insular quanto sua terra natal, apresenta, entre outras facetas, ao menos três que variam pelo vigor e pelo rigor com que as alimentava e era alimentado por elas, a saber: o místico político aglutinador, o filósofo e o poeta. Ainda que não se possa dizer que em todas elas ele conseguiu se realizar plenamente, é certo, porém, que tais facetas se intersecionam numa emulação constante, fato que pode ser percebido nas próprias atitudes e obras do autor.

O Antero místico político aglutinador, e reconhecido por seus pares como tal, é o organizador das Conferências do Cassino, o ativista político membro da Internacional e o polemista irônico e por vezes mordaz, talvez seja o mais eminente e destacado, ainda que vez por outra nos momentos decisivos haja se recolhido, quiçá motivado pelas outras facetas, e se insulado num silêncio congênito, como se gozasse de alguma dose de pejo que suas oscilações morais faziam por ressaltar.

O Antero filósofo talvez seja o menos veemente, alicerçado numa filosofia retrógrada cujos sistemas tentara em vão harmonizar numa articulação movediça que acabava por minar o terreno da disputa num apaziguamento estéril, indiferente ao fato de que é justamente bélico o traço característico de boa parte da filosofia de seu século – basta citar apenas Schopenhauer – que culmina na devastação arrazoada de Nietzsche e no transcender quase místico de Kierkegaard, não obstante, há que se reconhecer, a tentativa e visão de Antero é precisa na medida em que cunha de certa maneira o neokantismo no final do século – uma conjuminação de kantismo e positivismo, mas que influenciará, via Cohen, entre outros o russo Mikhail Bakhtin – ainda que na clave de Antero o logos apofântico seja mais para asserções que para certezas contundentes, em suma, o pensamento do autor não se realiza na filosofia, resultando meramente em comentários sui generis oscilando entre o imperativo categórico kantiano e o ascetismo culminante da Vontade de Schopenhauer.

Por fim, o Antero poeta – de quem me ocuparei – é que assume as contradições e se realiza como homem de seu tempo e como pensamento. É na poesia que Antero faz valer a potência de sua reflexão, mesmo que vez por outra seus sonetos deslizem no lugar comum, impregnados de fixidez dogmática, esse mesmo fato serve para enriquecer sua dialética irresoluta, enfim, o Antero poeta pensa muito mais que o Antero filósofo. É justamente desse Antero que me ocuparei nas páginas que seguem, tentando demonstrar tal argumento.

Alguns conceitos pertinentes

Martin Heidegger, no já famigerado texto A origem da obra de arte, nos aponta uma clareira, ainda que controversa, a fim de seguirmos um caminho:

§172 – A essência da arte é a poiesis. Porém, a essência da poiesis é a fundação da verdade. O fundar compreendido aqui em um triplo sentido: fundar como doar, fundar como fundamentar, fundar como principiar. Contudo, a fundação é realmente vigente apenas no desvelo. A cada modo do fundar, corresponde um do desvelar.

A crítica do trecho de Heidegger mereceria um capítulo à parte, contudo, me limitarei a um comentário rápido que possa situar sua perspectiva dentro da afinidade dispositiva com o poema de Antero.

A discrepância inicial ressoa na concepção que cada um deles tem do que haveria de ser a “verdade”, Antero, compreende a verdade como adequatio, conceito caro aos escolásticos, basta ver sua definição do que seria a filosofia:

É a equação do pensamento e da realidade, numa dada fase do desenvolvimento daquele e num dado período do conhecimento desta: o equilíbrio momentâneo entre a reflexão e a experiência: a adaptação possível em cada momento histórico (a história da ciência e do pensamento) dos fatos conhecidos às ideias directoras da razão, e a definição correlativa dessas ideias, não por esse fatos, mas em vista deles.

Já da perspectiva de Heidegger:

A designação grega Φιλοσοφία é composta a partir de Σοφία e φιλία ou seja, a partir de sabedoria e amor; costuma-se traduzi-la de modo um tanto sentimental e bonachão: amor à sabedoria (…). A Σοφία pertence ao adjetivo σοφός, por sua vez,  σοφός é aquele que tem o paladar certo para algo, que tem “olfato” e instinto para o essencial, e, por isso, tem facilidade em lidar diretamente com esse algo, compreendendo-o de um modo profundo, isto é, trata-se de alguém que consegue se colocar diante de uma coisa de uma maneira exemplar e, portanto, sobrepujante.

A discrepância de concepções conceituais talvez explique porque Antero considerasse sua “fase poética” apenas um meio do caminho de seu amadurecimento e prerrogativa fundamental para se dedicar à sua filosofia, ou, em suas próprias palavras:

A coleção dos meus Sonetos é o testamento do pobre poeta que acabou. Entro agora numa fase nova, e tenho jurado consagrar-me daqui em diante, todo e exclusivamente, ao trabalho de coordenação definitiva das minhas ideias filosóficas e, se tanto puder, à exposição metódica e rigorosa das mesmas.

No entanto, ledo engano, se adotarmos a disposição de Heidegger, perceberemos que era justamente na sua poesia que a questão crucial vinha à baila e se não de uma maneira sistematizada, ao menos de modo muito mais congruente e sólido. Na poesia a exposição de sua visão de mundo e a busca pela questão originária do ser, motivada pela angústia do ser-aí no mundo confrontado com sua lida e existência cotidiana, problematizando o real em seu âmbito originário, faz de Antero, a contragosto do que ele mesmo diz, um pensador que pensa o pensamento e, portanto, resguardadas as cabíveis e cabais diferenças, um amigo da busca pela investigação reflexiva. Sua poesia não age meramente como o velho conceito de adequação, é uma ruptura e um desvelamento
Vejamos, agora o que a poesia significava para cada um, para Antero:

a forma mais pura daquelas partes soberanas da alma coletiva de uma época, a crença e a aspiração (…). A Poesia é a confissão sincera do pensamento mais íntima de uma idade (…).

Para Heidegger:

Do lugar da poesia emerge a onda que a cada vez movimenta o dizer como uma saga poética. Longe de abandonar o lugar da poesia, a onda que emerge permite que toda movimentação de dizer seja reconduzida para a origem sempre mais velada. Como fonte da onda em movimento, o lugar da poesia abriga a essência velada do que a representação estética e metafísica apreende de imediato nesse ritmo.

Aqui, percebemos uma boa dose de congruência (curiosamente, Heidegger está falando de Georg Trakl, sujeito que em certa medida é tão atormentado quanto o próprio Antero e que também deu cabo da própria vida), se poesia não é filosofia, no entanto ela é como bem aponta Benedito Nunes:

(…) o limiar da experiência artística em geral, por ser, antes de tudo, o limiar da experiência pensante: um poién, como um producere, ponto de irrupção do ser na linguagem, que acede à palavra,e, portanto, também de interseção da linguagem com o pensamento.

Partindo dessa perspectiva, ainda que renegada pelo próprio Antero, procurarei levar a cabo a tarefa de demonstrar que o próprio autor estava errado quanto a si mesmo, que enquanto filósofo manqué era, sobretudo, um poeta pensador que essencial à reflexão necessária abria a clareira da realidade do mundo, pela angustia da fundamental percepção de sua existência.

Exercício de abordagem

Todo grande poeta só é poeta de uma única poesia.
Martin Heidegger

Não se trata, evidentemente, aqui, de procurar argumentar no sentido de que ipsis litteris um poeta só pode produzir um único e grandioso poema, mas sim do fato de que toda sua obra poética representa uma totalidade, com interferências internas que complementam e potencializam sua capacidade de significação e de sentido – claro também está de que a interferência de outros autores e obras direta e/ou indiretamente dialoga sempre e enriquece os sentidos possíveis, e é justamente nesse jogo dialógico que se pode procurar, dentro dos diálogos possíveis, um traço, se não essencial, ao menos forte o suficiente para se qualificar uma obra como artística, ainda que tal aspecto por si só não possa muitas vezes ser considerado isoladamente.

António Sérgioix, na organização e análise que faz dos Sonetos de Antero, divide-os em oito ciclos diferentes (um tanto à deriva do poeta, fato criticado por João Gaspar Simões), são eles: (1) Da expressão Lírica do Amor e Paixão; (2) Do Apostolado Social; (3) Do Sentimento Pessimista; (4) Do Desejo de Evasão; (5) Da Morte; (6) Do Pensamento de Deus; (7) Da Metafísica e (8) Da “Voz Interior” e do “Amor Puro”. A despeito dos critérios judicativos do crítico, o fato de ele perceber e organizar tematicamente a obra, demonstra que as preocupações de Antero eram motivadas por um quid interrogativo que visava a perscrutação do essencial da existência, o que subjaz ao ser, aquilo que Heidegger chamará de “disposição afetiva fundamental”, o “fundo”, o “abismo”, aquilo que sustenta o Dasein, aquilo que Aristóteles chamava de hipokeimenón.

Não obstante a possibilidade de confrontar em vários níveis os diferentes ciclos – entre si e no critério de escolha do crítico –, o poema que escolhi para tecer alguns comentários faz parte de um momento anterior do poeta, trata-se de um dos que foram destruídos pelo autor, mas que para azar seu fora preservado pelo seu amigo e crítico: Oliveira Martins, trata-se de Hino da manhã. Acredito que justamente nesse poema é possível perceber as nuances que irão se desdobrar ao longo da ulterior produção poética de Antero, além de nele haver uma preocupação de discussão e investigação da realidade além do mundo comum, e de uma perspectiva única e centralizada no olhar do poeta.

Não entrarei no mérito necessariamente de julgar se esse poema pertence a uma fase romântica do autor (como aponta o mesmo João Gaspar Simões ao aproximar Antero de Alexandre Herculano), mas me preocuparei em tentar demonstrar alguns aspectos que julgo relevantes. Além do que, as próprias discussões dos autores portugueses demonstrou que um juízo peremptório acerca de suas produções acaba por diluir-se numa visada atenta, já que dentro do próprio espírito da época, as obras e os autores oscilavam tanto em suas perspectivas quanto em suas demonstrações artísticas. Isso posto, vamos ao poema:

Hino da manhã

Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no Céu, pura e vibrante
E enche de força o coração triunfante
Dos que ainda esperam, luz imaculada!

Mas a mim pões-me tu tristeza imensa
No desolado coração. Mas quero
A noite negra, irmã de desespero,
A noite solitária, imóvel, densa,

O vácuo mudo, onde astro não palpita,
Nem ave canta, nem sussurra o vento,
E adormece o próprio pensamento,
Do que a luz matinal…a luz bendita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser,
Imagem do repouso inalterável
E do esquecimento inviolável,
Que anseia o mundo, farto de sofrer…

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento,
E olvida, como quem está já morto…

Já num primeiro momento é possível perceber como se desenhará o jogo dialético do poema, uma disputa entre a luz e as trevas, a luz, elemento aparentemente esclarecedor e demonstrativo da verdade, mas que na concepção do poeta serve apenas para, contraditoriamente, “turvar” a realidade, vale pensar que aquilo que “brilha“ e ilumina, em grego, se diz doxa, que também representa o senso comum, ou seja, uma mera aparência de verdade, o óbvio ululante, o lugar comum, a manhã que se repete a cada dia representa também a repetição de uma rotina de certezas feitas e prontas, que não exigem nenhuma necessidade de reflexão por parte de quem a enxerga. A manhã de luz é para os meros mortais que se contentam com ela e nada mais exigem e que à noite se recolheram do mistério da escuridão quando se está só a ouvir os próprios pensamentos.

Numa inversão a vida não se dá à luz, mas no escuro, onde é preciso forçar a vista e interpretar o que se vê numa busca interior de sentido. Vale lembrar que é justamente a luz que cria as sombras, aquelas mesmas da caverna de Platão, ao passo que é na escuridão – porém não na cegueira – que as coisas se mostram como realmente são, despidas do fascínio da aparência. Enxergar com clareza não é ver no claro, mas ser capaz de ver no escuro. Por isso, o poeta prefere a noite negra, a imagem do não-ser, que é realmente o que é, e no olvido do conhecimento cotidiano pode perscrutar à razão o que não aparece, ou seja, o essencial, o segredo por baixo das coisas e dos seres.

E, interrogando intrépido o Destino,
Como réu o renega e o condena,
E, virando-se, fita em paz serena
O vácuo augusto, plácido e divino…

Porque a noite é a imagem da Verdade,
Que está além das coisas transitórias,
Das paixões e das formas ilusórias,
Onde somente há dor e falsidade…

Como apontei, anteriormente, a concepção de “verdade” filosófica para Antero, comparativamente, aqui se apresenta não como adequação, mas como desvelamento, mesmo o Destino aparece aqui não somente como o fado, mas com o sentido de “para onde”, o que permite, lembrando mais uma vez Heidegger, da perspectiva de que todo ser à morte se destina e é justamente a partir dessa concepção e certeza apodídica é que se constitui na sua disposição afetiva fundamental, ou seja, o homem só se constitui na existência a partir da consciência de sua finitude:

A morte é a possibilidade mais-própria do Dasein. O ser para a morte abre para o Dasein seu poder-ser mais próprio, no qual o ser do Dasein está para e simplesmente em jogo. Nisso pode se tornar manifesto para o Dasein que, na assinalada possibilidade de si mesmo, ele é subtraído à-gente, isto é, no adiantar-se, ele pode se subtrair cada vez à-gente. Mas só o entendimento desse “poder” desvenda a perda factual na cotidianidade de a-gente ela mesma.

E com isso, se inicia a tarefa fundamental do pensamento, tudo o mais mostrado na luz é aparente e transitório, só o que não aparece (o Hades) é o essencial e certo, daí a primazia da noite sobre o dia, o poeta não quer o que se oferece, mas o que se furta, se obscurece na sua a-leteia.

Mas, tu, radiante luz, luz gloriosa,
De que és símbolo tu? do eterno engano,
Que envolve o mundo e o coração humano
Em rede de mil malhas, misteriosa!

Símbolo, sim, da universal traição,
Duma promessa sempre renovada
E sempre e eternamente perjurada,
Tu, mãe da Vida e mãe da Ilusão…

Outros estendam para ti as mãos,
Suplicantes, com fé, com esperança…
Ponham outros seu bem, sua confiança
Nas promessas e a luz dos dias vãos…

Ao contrário do que aparece no mito platônico, a luz é aqui vista como algo que proporciona o engano, que mistifica ao invés de realmente mostrar a realidade, iludindo numa suposta confiança os incautos que a almejam como uma profissão de fé, seria inexaurível expor toda a simbologia impregnada da luminescência divina ou da própria metáfora da luz como conhecimento, tal saber apresenta-se na concepção do poema como desprovida de verdade, ela é enganadora – pense-se a respeito na figura do “portador da luz”, o lucem fero, eternamente enganador e pai da mentira, que podia muito bem, na cabeça do místico Antero, cuja religiosidade nada tinha necessariamente a ver com um catolicismo tradicional, mas muito mais com uma espécie de holismo transcendental e aglutinador, baseado na ascese e numa pregação da virtude que, ainda que moralmente dogmática, apontava mais para um agnosticismo consciente.

Eu não! Ao ver-te penso: Que agonia
E que tortura ainda não provada
Hoje me ensinará esta alvorada?
E digo: Por que nasce mais um dia?

Antes tu nunca fosses, luz formosa!
Antes nunca existisses! e o universo
Ficasse inerte e eternamente imerso
Do possível na névoa duvidosa!

O que trazes ao mundo em cada aurora?
O sentimento só, só a consciência
Duma eterna, incurável impotência,
Do insaciável desejo, que o devora!

De que são feitos os mais belos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? de ilusões, de dores,
De misérias, de mágoas, de agonias!

Contraditoriamente, a luz não desvela, ela obscurece e desumaniza ao arrastar o poeta ao solo improfícuo e sobretudo reles das misérias das quais seu olhar procura transcender – mais ou menos como O Albatroz, de Baudelaire.

O Sol, inexorável semeador,
Sem jamais se cansar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes inúmeras da dor!

Oh! como cresce, sob a luz ardente,
A seara maldita! como freme
Sob os ventos da vida e como geme
Num sussurro monótono e plangente!

E cresce e alastra, em ondas voluptuosas,
Em ondas de cruel fecundidade,
Com a força e a subtil tenacidade
Invencível das plantas venenosas!

O sol aparece como portador não de um “novo dia”, mas do “mesmo dia”, quando nada se modifica, a semear sempre os mesmos frutos que alimentarão o eterno lugar comum da ignorância – de passagem, atentemos para a constante crítica que a geração de Antero fazia ao atraso de Portugal em relação ao resto da Europa, era necessário alimentar-se de outra espécie de alimento que a modorra e temor portugueses alienavam e renegavam, novas ideias, ideias progressistas, pense-se nas Causas da decadência dos povos peninsulares.

De podridões antigas se alimenta,
Da antiga podridão do chão fatal…
Uma fragrância mórbida, mortal,
Lhe ressuma da seiva peçonhenta…

E é esse aroma lânguido e profundo,
Feito de seduções vagas, magnéticas,
De ardor carnal e de atracções poéticas,
É esse aroma que envenena o mundo!

Como um clarim soando pelos montes,
A aurora acorda, plácida e inflexível,
As misérias da terra: e a hoste horrível,
Enchendo de clamor os horizontes,

Torva, cega, colérica, faminta,
Surge mais uma vez e arma-se à pressa
Para o bruto combate, que não cessa,
Onde é vencida sempre e nunca extinta!

Quantos erguem nesta hora, com esforço,
Para a luz matinal as armas novas,
Pedindo a luta e as formidáveis provas,
Alegres e cruéis e sem remorso,

Que esta tarde há-de ver, no duro chão
Caídos e sangrentos, vomitando
Contra o Céu, com o sangue miserando,
Uma extrema e impotente imprecação!

Quantos também, de pé, mas esquecidos,
Há-de a noite encontrar, sós e encostados
A algum marco, chorando aniquilados
As lágrimas caladas dos vencidos!

E por que? para que? Para que os chamas,
Serena luz, ó luz inexorável,
Á vida incerta e à luta inexpiável,
Com as falsas visões, com que os inflamas?

Para serem o brinco dum só dia
Na mão indiferente do Destino…
Clarão de fogo-fátuo repentino,
Cruzando entre o nascer e a agonia…

Para serem, no páramo enfadonho,
À luz de astros malignos e enganosos,
Como um bando de espectros lastimosos,
Como sombras correndo atrás dum sonho…

Aqui, talvez fosse possível apontar uma crítica ao Movimento Romântico que mesmo entretecendo suas trevas terríveis e mortais acabavam por chorar “As lágrimas caladas dos vencidos”, no sentido de que não conseguiam chegar ao sumo, se resignando às aparências e pelo excesso de trevas acabavam no lugar comum, esgotando a potência das palavras em seus conceitos esvaziados pela saturação. Antero aponta que a solução está em outra direção para a qual é preciso aprender a enxergar e ver, que descreverá na parte final do poema:

Oh! não! luz gloriosa e triunfante!
Sacode embora o encanto e as seduções,
Sobre mim, do teu manto de ilusões:
A meus olhos és triste e vacilante…

A meus olhos, és baça e lutuosa
E amarga ao coração, ó luz do dia,
Como tocha esquecida que alumia
Vagamente uma cripta monstruosa…

Surges em vão, e em vão, por toda a parte,
Me envolves, me penetras, com amor…
Causas-me espanto a mim, causas-me horror,
E não te posso amar – não quero amar-te!

Símbolo da Mentira universal,
Da aparência das coisas fugitivas,
Que esconde, nas moventes perspectivas,
Sob o eterno sorriso, o eterno Mal;

Símbolo da Ilusão, que do infinito
Fez surgir o universo, já marcado
Para a dor, para o mal, para o pecado,
Símbolo da existência,sê maldito!

Por fim, a solução apontada não é “sair da caverna”, mas procurar no fundo das trevas a descoberta de que sombras são sombras, por si mesmo, sem a necessidade de se apoiar numa transcendência que não se obterá enquanto não houver a consciência do que se é realmente; trata-se, creio, não de um pessimismo derrotista, mas de um niilismo que visa a aniquilação do aparente e a valorização dos olhos que se acostumam com a treva e nesse mergulho sim são capazes de distinguir o que é necessário do que é contingente, ponto crucial de toda e qualquer filosofia, como sugeri no início, aqui Antero está demonstrando uma profunda visão de mundo que não procura o apaziguamento, mas a aniquilação, a filosofia construída a “golpes de martelo” que será levada a cabo por Nietzsche e que não à toa, via na arte uma das manifestações tácitas da possibilidade de realmente se fazer o mundo, também, assim como Nietzsche, em seu jogo entre apolíneo e dionisíaco, Antero faz seu jogo numa dialética de luz e sombra e, na medida em que renega o senso comum luminoso, estabelece uma nova perspectiva e, também de novo como Nietzsche, questiona violentamente o socratismo platônico do kosmos que ilude, numa tentativa de retornar a um caos originário (lembremos que a palavra caos no sentido mítico dado por Hesíodo em sua Teogonia tem o sentido de uma espécie de “bocejo sem boca”) que aponta, em Antero para a busca que já citei do “fundo”, do “abismo”. Em suma, no Antero filósofo apaziguador e, com perdão da expressão não muito acadêmica: “paz e amor”, nada acontece, enquanto que aqui, nesse poema de juventude, depois renegado, ele realiza o pensamento de maneira profundamente contundente e de acordo realmente com o espírito de sua época.

Referências

ARISTÓTELES. Metafísica. Ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale. Tradução de Marcelo Perine. (Três volumes). São Paulo: Edições Loyola, 2001.

BEAINI, Thais Cury. Heidegger: arte como cultivo do inaparente. Edusp: São Paulo, 1986.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Tradução de Maria da Conceição Costa. Lisboa: Edições 70, 1992.

_____. A origem da obra de arte (bilingue). Tradução de Idalina Azevedo e Manuel Antonio Castro. São Paulo: Edições 70, 2010.

_____. Ser e tempo. Tradução revisada e apresentação de Márcia Sá Cavalcanti Schuback; posfácio de Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista; Editora Universitária São Francisco, 2007.

_____. Ser e tempo (bilíngüe). Tradução, organização e nota prévia de Fausto Castilho. Campinas: Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.

_____. Introdução à Filosofia. Tradução de Marco Antonio Casanova; revisão da tradução de Eurides Avance de Souza; revisão técnica de Tito Lívio Cruz Romão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

NUNES, Benedito. Passagem para o poético. Filosofia e poesia em Heidegger. São Paulo: Ática, 1992.

_____. Hermenêutica e poesia: o pensamento poético. Organizadora: Maria José Campos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

PLATÂO. A República. Tradução de Enrico Corvisieri. Nova Cultural: São Paulo, 2004.

QUENTAL, Antero de. Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX. Fac-símile do autógrafo. Estudo de João Serrão; leitura de Ana Maria Almeida Martins. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 1991.

_____. Sonetos. Edição organizada, prefaciada e anotada por Antônio Sérgio. Livraria Sá da Costa editora: Lisboa, 1963.

RIBEIRO, Maria Aparecida. História crítica da literatura portuguesa: volume VI – Realismo e Naturalismo. 2ª edição. Editorial Verbo, Lisboa, S/D.

SADIZIK, Joseph. La estética de Heidegger. Tradução de J. M. García de La Mora. Editorial Luis Miracle: Barcelona, 1971.

SIMÕES, João Gaspar. Antero de Quental. Editorial Presença: Lisboa, 1962.

SHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Tradução, apresentação de notas de Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2005.

YOUNG, Julian. Heidegger’s Philosophy of Art. Cambridge University Press: Edimburg, 2001.

(Publicado originalmente em Germina)

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