Sou poeta, foge! A antipoética de Jorge Barbosa Filho

perguntei pro cantar

por que canto?

enquanto encanto a dor

num espanto.

Falar da poesia contemporânea e ainda mais situar um autor dentro desse quadro é uma tarefa árdua e praticamente impossível. Simplesmente porque a poesia contemporânea não existe. Há, evidentemente, uma gigantesca massa discursiva, mas essa massa discursiva não atinge praticamente ninguém, quando muito uma meia dúzia de gatos pingados de acadêmicos e poetas, que quase sempre são a mesma pessoa.

Colocando os pingos nos is, o que estou dizendo é que toda essa produção poética é estéril, porque não possui alcance, simplesmente porque não há consumidores de poesia. É ingenuidade pensar que no mundo consumista, ainda que dotado de uma hiperestesia, a poesia signifique algo mais do que um mero exercício hedonista de auto satisfação, afinal, é bacaninha publicar um livro e gozar dos afagos de parentes e amigos e dizer: sou poeta! Não há, infelizmente, nos dias de hoje, poesia além desse mero exercício de escrita, praticado pelas mais variadas estirpes: do advogado ao oftalmologista, sem esquecer é claro dos adolescentes que naturalmente se fascinam com Álvares de Azevedo e propagam sua adolescência em versos adolescentes, pois, embora atinjam a maturidade econômica antes da meia idade, sua maturidade poética não consegue sair da vala comum do amor/dor, lua/rua e afins.

eu queria compreender

essa voz

(e hoje a vejo)

o eco

chove

no molhado

Formar leitores — e leitores de poesia — nunca foi uma preocupação social de fato, no máximo uma preocupação familiar como um verniz perfumado de “bom gosto”, mesmo na escola, onde se comete a violência estapafúrdia de juntar o ensino da língua portuguesa com a literatura (e a poesia), já que a literatura (e a poesia) não têm que cumprir necessariamente o papel pragmático que lhes é impingido, a literatura (e a poesia) deveriam sim ser autônomas e consideradas muito mais próximas da arte (talvez os professores de educação artística sofram ainda mais e sejam tratados como meros recortadores de EVA para o dia das mães), para que lhes fosse reconhecida sua dimensão vital e ontológica. A razão disso é muito simples, de fato, em termos positivos, arte, literatura e poesia não servem para nada, ao menos dentro da limitação temporal de uma vida cada vez mais finita, onde Cronos manda mais que Kairós.

não temo o medo

mas o tempo da covardia

e a insânia destes

mesmos dançantes

Na outra ponta do arsenal possível da formação de leitores está a crítica, que é outra coisa que inexiste, por mais que tenhamos uma enxurrada de crítica acadêmica e resenhistas saindo dos cursos de ciências humanas, raramente alguém possui a sensibilidade e a experiência necessária para dizer algo de relevante ou cativante (somente cultura e informação não garante a ninguém capacidade crítica, é preciso formação, e isso só vem com vivência da realidade humana que tem cheiro e gosto, não com a assepsia das telas dos computadores), muito menos possui leitores, é uma crítica muda porque ninguém lhe dá ouvidos.

É dentro desse cenário desesperador do não existir da poesia que tem gente fazendo poesia. Mas, por mais contraditório que possa parecer, tem gente que gosta de “amolar e esmurrar a faca cega” e bater contra o muro para ver se o muro desiste ou algum deus (que também não existe) benevolente opere um milagre.

sem fim e sem começo

tudo aquilo que tento

é beco.

Jorge Barbosa Filho não é um poeta, é um goliardo que ao invés de vestir a túnica da poesia se despiu dela e não teme ser apontado nu, porque o que o diferencia não são os versos singulares de temáticas existenciais, é a sua própria existência que o qualifica e o permite ser a consciência transcendental em meio a um mar de falares.

este mar em que me encontro,

espontaneamente avesso,

onde as ondas se equilibram

espumam-se por escrito

quase o que não sei falar

e flutua-me os sentidos

exilado num vasto risco

com o destino nu em pelo

Ser “poeta”, se isso ainda é possível, é ser antipoeta, é um ato de resistência e uma disposição afetiva do ser que foi esquecida e a muito custo consegue ser lembrada, não sem sacrifício, mas um sacrifício distante do incenso e do silêncio das bibliotecas.

“O tempo presente, a vida presente”, não “o mundo caduco”.

Não se trata, evidentemente, de uma visão romântica que ainda rotula o bom poeta como poeta maldito, mas se trata de ser capaz de extrair o originário da existência em cada ato, por mais cotidiano que seja, e vivificá-lo, tirando o leite das pedras da banalidade.

ato o animal além de mim

e estico um sorriso

em cima dos abismos

de onde faço falar as coisas

Esse sim, o sentido daquilo que o esperto estagirita apontou com o dedo quando falou da tão mal compreendida mimese (traduzida pessimamente como i-mitatio), poesia não é nada além disso: “a feitura da mimese”, o recontar da experiência originária, o desvelar do mito.

ou meu mito

meus eus meus zeus

dos nuncas cheios de agoras

e eternos jamais

mas

basto-me bastando-nos

E o mito do antipoeta atinge seu télos justamente na entropia da poesia, o que nos aponta, talvez, uma saída ao ladrar desesperado diante desse nada saturado de tudo que é a “poesia contemporânea”, a única maneira de ser poeta é ser antipoeta e enxergar a poesia de sua perspectiva mais original que é ser antipoesia.

contudo, procuro

na arte da fuga

algo que vá distrair

meus melhores poemas

da pretensão de sê-los.

E, claro, para a antipoesia, a anticrítica.

quem acha que se achou

já está perdido




Texto publicado originalmente em TXT Magazine

A obra de Jorge Barbosa Filho está disponível aqui