Descartatau

Prolegômeno

Já lá se vão quase duas décadas, desde que escrevi este texto como dissertação de mestrado. Obviamente, não sou a mesma pessoa que eu era, mas, não seria a pessoa que sou hoje, se não houvesse sido aquela.


Leminski surgiu na minha vida na adolescência, como sói acontecer com muita gente que se encontra nele quando começa a escrever as primeiras coisinhas, temerariamente, à procura de alguma envergadura literária que nos torne membros do clube privado da poesia — a mais nobre e a mais injustiçada das disposições artísticas. A maior qualidade de Leminski é talvez o seu maior defeito, Leminski faz com que em tenra idade acreditemos que fazer poesia é possível — e mais que possível: fácil. Embora, tal facilidade seja mera superficialidade e aparência, e boa parte dos poetas morre na casca, em detrimento de outros interesses, porque a coisa toda não é nem um pouco fácil.


Para mim, não era apenas a poesia de Leminski que era interessante, sua personalidade me fascinava, talvez pelos motivos errados, mas fascinava, porém, foi somente com o tempo que a verdadeira dimensão de Leminski se me desvelou com o peso e a potência de uma selvageria. Foi a partir dele que o universo da literatura, da poesia, da linguagem e, fundamentalmente, do pensamento se me abriram. Leminski me deu a chave de um mundo, generosamente, como quem partilha um lugar à mesa. E serei grato a ele até o fim de meus dias.


Creio que um dos motivos de grande parte das pessoas serem indiferentes e refratárias à famigerada alta cultura, como diz Peter Weiss no monumental Estética da resistência, se deva ao fato de não serem capazes de encontrarem uma entrada para esse mundo e, por conta disso, acabarem boiando nas facilitações de uma pseudocultura advinda do consumo imediato dos bens ditos culturais e sua manipulação — a lida com o artefato, o artifício e não a vivência artística.


Não se trata, evidentemente, de menosprezar a cultura pop — Leminski (e não só ele) incorporou elementos das mais variadas estirpes e origens nas suas criações — se trata de ser capaz da transitividade antropofágica e lúdica, e dar a isso uma estatura que seja de fato relevante na vida. É ser capaz de mover-se. A subcultura emociona, mas contraditoriamente não move, ela estagna, dopa e aliena e isso está muito longe, creio eu, daquilo que qualquer artista deseja, ainda que o dinheiro seja fundamental para a vida, uma obra de arte não pode e não deveria ser medida por valores que não sejam os artísticos. O problema disso, embora possa não parecer um problema, é que a estagnação e o embotamento, além de homogeneizantes, estiolam não apenas as possibilidades criativas e originais, mas transformam a cultura numa ferramenta de controle, tanto quanto a religião num mundo sem deus e sem moral, a velha política do panis et circenses.


Dessa perspectiva é que se pode muito bem diferenciar a arte do artifício e, sabe-se lá a razão, é por essa postura da arte como vivência e não como mera produção monetariamente válida, que Leminski — o autor, intelectual e o personagem — me seduziu, na medida em que dava vivacidade não apenas ao popular imediato do cotidiano, mas o emulava com uma tradição que embora não tenha ponto de chegada, aponta para o movimento da história.
Leminski faz isso de maneira contundente no Catatau, pervertendo e carnavalizando centros de valores numa emulação crítica que deturpa a base esquecida do aspecto funcional e pragmático da arte e do pensamento, tudo isso sem perder de vista a dimensão artística vital de sua obra.


Nos tempos em que conheci Leminski, o Catatau era uma espécie de lenda urbana, muita gente citava, pouca gente tinha lido, era um livro mais falado do que conhecido. Sua reputação era de inelegibilidade, tanto quanto o Ulysses ou o Finnegan’s wake.


Meu primeiro contato com o texto foi graças a um amigo que conseguiu a edição por meios pouco ortodoxos. Foi um choque. Aparentemente, para a minha maturidade e carga cultural, aquilo era ilegível. Era como se basear no senso comum para achar sentido num filme de Buñuel ou no A love supreme, do Coltrane.


Embora eu tenha convivido com o Catatau quase que diariamente desde então — e nesse ínterim tenha me dedicado a trabalhar com outros textos de Leminski (especificamente o Agora é que são elas, sobre o qual escrevi, no meu bacharelado em Letras) — levou algum tempo até que eu descobrisse que era necessária uma mudança de perspectiva em mim diante do livro, para além da compreensão e entendimento, era de percepção que se tratava. Tal mudança de perspectiva acaba sendo uma exigência a qualquer um que se proponha estudar e conviver com arte — seja de que natureza ela for — mas, principalmente com poesia.


Poesia — e o Catatau é poesia — tem a ver muito pouco com entendimento no sentido corriqueiro do termo, tem a ver com percepção e, em certa medida, com sentimento. Lembrando que legibilidade não é clareza, quando se fala de discursos artísticos.


Poesia não é bula de remédio que exige a compreensão da posologia. Normalmente, grandes autores tendem a envolver seus pensamentos em camadas, exigindo do leitor que escavem o texto em busca das relíquias escondidas, no Catatau, pelo contrário, o processo está exposto em toda a sua obscuridade criativa. Creio que isso que estou chamando de processo criativo é o que mais me interessou e o que mais me interessa.


Pra mim, o menos interessante que existe por ali é o que aparece de maneira óbvia nos inúmeros referenciais e citações diretas e indiretas, e cuja ignorância não prejudica em nada a leitura e a fruição do texto, talvez o livro fique mais legal com elas? Talvez, mas não acredito muito nisso, assim como o Ulysses pode ser divertidíssimo como uma bela história, o Catatau também o pode. Outras pessoas se dedicaram a isso com muito rigor e vigor de mapeamento e, a quem interessar possa, merecem ser prestigiadas.


Sendo assim, minha preocupação foi situar alguns aspectos referenciais formativos no discurso de Leminski, no Catatau, e, de certa maneira, indicar como esse discurso se construiu e impôs, assumindo suas contradições como polos de conflito dialógico e vivificador.


No tempo em que me dediquei a produzir este texto, Bakhtin ainda não estava sumariamente na crista da onda, as traduções não eram tão disponíveis (eu não sei russo e não vai dar mais tempo de aprender) e a internet era movida a lenha, por isso, muitas das minhas referências são de edições antigas e não me preocupei em atualizá-las, principalmente porque poderiam exigir de mim que mudasse a direção de meus raciocínios e minhas (in)conclusões.

Quando defendi minha dissertação, eu já estava mudando o foco de meus interesses acadêmicos e intelectuais, e já havia me tornado aluno do curso de filosofia, então, este texto representa pra mim uma espécie de ponto de viragem e um marco de meu pensamento que não pode ser negligenciado, além do fato de ter exigido muito daquelas minhas potencialidades na época. Enfim, o que quero dizer é que fiz o que pude com o que tinha e o que era. Hoje, provavelmente, eu faria algumas coisas diferentes. Mas, isso não invalida o que fiz e o que pensei.