Fecha o que o olho neste instante abriu como fresta

Whether ‘tis nobler in the mind to suffer

The slings and arrows of outrageous fortune,

Or to take arms against a sea of troubles

And by opposing end them.

I

Disse certa vez um poeta carioca – não sem uma certa dose de ironia, que: “poesia é sentir e dar sentido”, dentre as inúmeras tentativas de estabelecimentos de conceitos daquilo que se possa chamar poesia (e os seres humanos, como seres do/com o logos têm um certo fascínio por definições palpáveis para reificar o mundo e pegá-lo com a mão – o fantasma da técnica nos assombra mais do que o da poesia, ainda que sejam irmãos), e sabendo que é mais fácil optar pelo simples do que por tergiversações complicadas que exigem piruetas de justificativas, essa me parece ser uma excelente definição.

Como todas as definições simples, essa é uma definição complicada, pois, para seu entendimento, apesar da aparente obviedade de sua compreensão, ela guarda em si, quando vista mais de perto, uma série de camadas cujo requinte exige uma certa dose de refinamento para ser efetivamente captada.

Todo mundo sente, embora esse “sentir” possa ser interpretado de diversas maneiras, ainda mais quando se trata de poesia e de arte, em que é lugar comum pressupor que a o universo artístico é o espaço do sentir por excelência, o significado da palavra está mais ao rés do chão do que o voo metafísico propõe. Quem sente sente: frio, calor, fome, sede e todas as determinações físicas que os sentidos nos permitem, ainda que, num passo além, também sintamos raiva, amor, tristeza e toda uma gama de coisas que dependem de um outro tipo de parafernália.

Comumente, ao poeta cabe esse segundo aspecto e muito menos o primeiro – é como se essa criatura das nuvens (o poeta) vivesse sete palmos acima da terra, transitando efêmero e fugidio como um espírito, sem corpo, somente “alma”. E é aqui, justamente, onde reside um dos maiores equívocos. O poeta, meus caros – pasmem – é de carne e osso, e é graças a isso que ele é capaz de (literal e literariamente) estar no mundo e, a partir dessa sua existência, falar.

Todo mundo fala, embora nem todos digam algo diferente do ruído – o mundo é um lugar muito barulhento. Eis o segundo elemento de nosso conceito: “dar sentido”. Em meio a essa algaravia i-munda (porque cheia de mundo), o poeta é aquele capaz de alçar seu discurso acima das outras vozes, incorporando-as e fazendo delas sua matéria prima, e nesse ato estabelecer a diferença entre uma poesia que seja real e palpável como um soco na cara e aquela dos lugares comuns dos nefelibatas que pararam no tempo e ainda pensam que poesia fala de algo que não seja aquilo que está sendo sentido com o corpo, antes de ser sentido com a “alma”.

II

É no corpo que mora a poesia de Júlio, é na sua vivência e combate com a vida (gozando vez por outra o armistício do vinhozinho que ninguém é de ferro, mas só para ter um tempo de lustrar as armas) que percebemos o suor do corpo nas andanças e no despertar cotidiano que espanta e dá o que falar. É na carne que ele sente e dá sentido, seja no rasgo visceral de versos como:

Asfixia

Versificar é moer o grito

Do não-sonoro com as mãos do ouvido.

Estender a presa respiração e

O suspiro.

O desenho

Invade a tesoura do infinito.

A imagem da tesoura que corta não apenas o infinito, mas também a realidade sensível e sentida, numa costura que alinhava o discurso poético de maneira inusitada e marcante, define bem a temática e a postura de Júlio na sua disposição afetiva fundamental de poeta que vive e que não teme o nu, o cru e o carnal. Mas, por vezes, sem perder a sutileza de um quase-afago:

Farpas

Faca por aqui não é

Arma branca

É arma branda.

Armados de Tenazes

Dissimulares

Com garras de angústias

E sombra nos olhares

Os outros e os outros

Em mim combatem:

A luz da minha sombra.

Bem dito que “a mesma mão que afaga esbofeteia”, além do óbvio parentesco temático que vez por outra compartilham, creio que Júlio e Augusto possuem a capacidade de transitar não somente entre a agressividade e doçura (numa antítese que estilisticamente captamos como recurso em seus fazeres), mas também de evidenciar em seus versos o inaudito irônico (no sentido mais duro do termo ironia) da eterna pergunta de Hamlet.

E tudo isso, graças à capacidade de ter escolhido a clave fundamental da vida que é viver, e não apenas se alimentar de espírito e letras nos gabinetes limpinhos da virtualidade plástica que nos assola enquanto leitores de poesia (e como há poetas!), a poesia de Júlio tem sim o cheiro do humano e, mesmo que vez por outra O corvo paire, somente os desavisados julgam que é da morte que se trata. Poesia (e dou cá uma definição que me agrada) é acima de tudo “viver e dar vida”, à palavra, ao sentimento e ao que nos define na eterna procura das definições de nós mesmos.

O livro de Júlio traz bem mais do que cinquenta poemas, traz cinquenta anos de vida.

Este medo tem medo de existir

Não tenha medo de desistir

De ter um medo assim

Segue o baile.

Para conhecer mais e melhor a poesia de Júlio Urrutiaga Almada, acesse aqui


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